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MENSAGEM PASTORAL “A JUVENTUDE E A FÉ TESTEMUNHADA”

Mensagem dos Bispos da CEAST destinada aos jovens angolanos e santomenses, a acolher o convite de, neste último ano do triénio, a reflectir sobre “a juventude e a fé testemunhada”, depois de, no primeiro ano, termos abordado o tema “a juventude e a fé anunciada” e, no segundo, “a juventude e a fé celebrada”.

 

JOVEM, QUERO FICAR EM TUA CASA!

(Cf. Lc 19,5)

 

TEXTO BÍBLICO:

«E, tendo entrado em Jericó, ele atravessava a cidade. Havia lá um homem chamado Zaqueu, que era rico e chefe dos publicanos. Procurava ver quem era Jesus, mas não o conseguia por causa da multidão, pois era de baixa estatura. Correu então à frente e subiu num sicômoro para ver Jesus que passaria por ali. Quando Jesus chegou ao lugar, levantou os olhos e disse-lhe: “Zaqueu, desce depressa, pois devo ficar em tua casa”. Ele desceu imediatamente e recebeu-o com alegria. À vista do acontecido, todos murmuravam, dizendo: “Foi hospedar-se na casa de pecador!”. Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: “Senhor, eis que dou a metade de meus bens aos pobres, e se defraudei a alguém, restituo-lhe o quádruplo”. Jesus lhe disse: “Hoje a salvação entrou nesta casa, porque ele também é um filho de Abraão. Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”» (Lc 19, 1-10).

 

Introdução

  1. Estimados jovens angolanos e santomenses! Nós, os Bispos da CEAST, queremos, convidar-vos, neste último ano do triénio a vós dedicado, a reflectir sobre “a juventude e a fé testemunhada”, depois de, no primeiro ano, termos abordado o tema “a juventude e a fé anunciada” e, no segundo, “a juventude e a fé celebrada”.

  1. Começamos por afirmar que todo o encontro com Cristo deve culminar no testemunho, como nos recorda Pedro, no seu discurso do Pentecostes: “mas ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo” (Cf. Act 1, 8). O Papa lembra, a este propósito, na Evangelii Gaudium, a necessidade de sermos uma Igreja em saída, como forma de respondermos a este mandato de Cristo.

  1. Nesta mensagem, destacamos os desafios que o contexto sócio-político de hoje vos apresenta, reafirmando a nossa fé e confiança na vossa capacidade de testemunhar Cristo em todo o tempo e lugar. Desafiamo-nos a nós também, enquanto Pastores, a caminhar mais próximos de vós, pois Cristo convida todos à juventude de alma.

 

 

I – A FÉ E OS DESAFIOS ACTUAIS DA JUVENTUDE

Ser Jovem hoje e viver a fé

  1. A diferença de contexto, o grau de desenvolvimento humano e psicológico, as crenças e culturas, assim como as condições sócio-económicas, influenciam consideravelmente na forma como os jovens percebem a sua identidade, a sua inserção sócio-cultural e dita a forma como desfrutam desta etapa das suas vidas, uma das mais lindas no caminho da sua existência.

  1. A juventude é um tempo de robustez e, por isso, é a fase da ousadia, da busca, da auto-afirmação. As Sagradas Escrituras estão cheias de passagens que nos mostram como Deus aposta nos jovens para a efectivação da sua obra salvífica. Deus chama os jovens Samuel, David, Jeremias, Rute (a moabita), Susana, Ester…Uma referência especial merece a jovem Maria, a mãe de Jesus. Deus ousa nascer de uma jovem mãe, Maria. Esta, embora perguntando: “como será isso, se eu não conheço o homem” (Cf. Lc 1, 34), aceita a proposta de Deus, com um sim de total confiança n’Ele, que a escolheu para essa missão: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. (Cf. Lc 1,38).

  1. O próprio Jesus, desde muito cedo, assumiu a sua identidade de Filho e, aos 12 anos, afirma a sua missão de “cuidar dos assuntos do Pai” (Cfr. Lc 2,49). Jesus era praticamente uma criança, mas já assumia o compromisso de falar, de questionar, de interpelar, mostrando-nos que a juventude é uma etapa da vida para ousar, questionar, aprender, ser livre e ser responsável.

  1. Dos exemplos acima apresentados, podemos depreender que Deus escolhe, tantas vezes, jovens aos quais, à partida, a sociedade não dá nenhum crédito, mas que, enviados por Ele, realizam a missão que lhes é confiada.

  1. Ser jovem é viver com intensidade cada momento que a vida nos dá. Não de maneira desenfreada, gastando a vida com coisas que não nos edificam, como por exemplo, o álcool, o uso de drogas, a prostituição, o roubo, a mentira, mas de um modo alegre, livre e responsável.

  1. Ser Jovem é poder ter a força para, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, não se deixar destruir como pessoa, mantendo a firmeza de carácter e não hipotecando o futuro.

  1. Ser Jovem é também sentir a certeza da Vida, fruir a sensação de que se pode viver para sempre como jovem. Essa é uma das forças da própria juventude, desde que não se deixe alienar pela indústria da moda, os mídia, o apelo às cirurgias plásticas, a ilusão de uma felicidade aparente comprada pelo dinheiro. Estas coisas deixam o jovem desenraizado dos seus valores culturais e da sua fé.

  1. Deus sonha e conta com cada um de vós, jovens, e é preciso aceitar correr o risco que a jovem Maria correu de confiar sempre em Deus. Mesmo perante situações que nos pareçam pouco claras e estejamos na dúvida, na incerteza, precisamos ter a coragem de arriscar, porque, como afirma o dito popular, “ninguém nasceu ensinado”. Aliás, o Papa Francisco nos diz “Vós, jovens, caminhais com dois pés como os adultos, mas, ao contrário dos adultos que os mantêm paralelos, vós colocais um atrás do outro, prontos a arrancar, a partir. Vós tendes tanta força, sois capazes de olhar com tanta esperança! Sois uma promessa de vida, que traz em si um certo grau de tenacidade (Cf. CV 139).

 

Ser Jovem enraizado na fé

  1. O autor da Carta aos Hebreus afirma: “Ora, a fé é garantia das coisas que se esperam e certeza daquelas que não se vêem” (Cf. Hebreus, 11, 1). Esta definição dimensiona a fé como fundamento, a rocha, o substrato, o cabouco que segura o edifício humano. Mas esta imagem da fé não a reduz a uma estrutura inamovível, pois a fé, assim entendida pelo escritor sagrado, é o fundamento por detrás de tudo o que se espera e nos espera. A fé é abertura ao futuro que nos está reservado por Cristo. É abertura à esperança de que as promessas do Reino se realizam no dia-a-dia de cada um de nós. Acreditamos que, um dia, Cristo também nos dirá: “hoje estarás Comigo no Paraíso” (Cf. Lc, 23, 43).

  1. A fé que recebemos e que celebramos, move-nos a arriscar na promoção do Reino, pois ela é, ao mesmo tempo, a rocha, o caminho, a segurança, a firmeza e o fundamento da vida do cristão. Pela fé, temos a garantia de que Deus reserva-nos sempre o melhor, pedindo-nos apenas que nos deixemos surpreender pelo seu amor. Por isso, estar enraizado na fé é acolher a alegre surpresa dos dons que Deus nos dá. Com Deus e em Deus, a vida é uma escola de alegria. Longe de Deus, o vinho da alegria e o vinho da esperança esgotam-se.

 

Juventude e influências do contexto sócio-cultural

  1. Os desafios são sinais da “metamorfose” da condição humana, que lançam para todos, especialmente para os jovens, enormes oportunidades no caminho da construção de uma identidade sólida (Cfr. Instrumentum Laboris sobre o Sínodo dos Jovens, nº 6), pois, as decisões essenciais da nossa vida são tomadas, normalmente, na juventude.

  1. Entretanto, o nosso contexto social e cultural nem sempre facilita o processo de decisão. Entre os desafios enfrentados, estão as práticas culturais que atrasam a maturidade e o desenvolvimento dos jovens. Nas nossas comunidades, ainda persistem práticas culturais nocivas à dignidade humana e à doutrina cristã, como é o caso da mentalidade mágico-feiticista. A mentalidade feiticista paralisa a criatividade, instala a cultura do medo e da insegurança, mata a confiança na comunidade e na família e promove a acusação de feitiçaria contra crianças e velhos/as, inibe o empreendedorismo e o desenvolvimento pessoal e comunitário. A este propósito, escutemos o que diz o Senhor: “quando entrares na terra que o Senhor, teu Deus, te há-de dar, não imites as abominações daquelas gentes. Ninguém no teu meio faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha; ou se dê a encantamentos, aos augúrios, à adivinhação, à magia, ao feiticismo, ao espiritismo, aos sortilégios, à evocação dos mortos, porque o Senhor abomina todos os que fazem tais coisas. Por causa destas abominações é que o Senhor, teu Deus, desaloja da tua frente essas gentes. Entrega-te inteiramente ao Senhor, teu Deus. De facto, essas gentes que tu vais desalojar acreditam em agoireiros e adivinhos, mas a ti o SENHOR, teu Deus, não o permite.(Cf. Dt 18, 9-14).
  1. Jovens, desafiamos-vos a enfrentar esta mentalidade, afirmando com coragem a fé em Deus, Senhor da Vida, que a todos nos criou para vivermos como irmãos e juntos construirmos o mundo novo que sonhamos.

  1. Outra situação cultural condenável é o da promoção do casamento precoce, presente em algumas das nossas sociedades, aliado com um certo espírito de consumismo e aproveitamento do outro. Na verdade, hoje, o rito do alambamento, em alguns casos, tornou-se um negócio entre famílias e um espaço de aproveitamento do outro e de lucro fácil.

  1. O desafio do consumismo e da moda são outros dos entraves ao testemunho da fé. Tal como já o referimos nesta mensagem, o consumismo e a moda distorcem o sentido do ser jovem e minam as relações dentro das famílias, inclusive dentro dos movimentos juvenis nas paróquias, pois tende-se a dar importância à marca da roupa, ao arranjo do cabelo, ao invés da integridade, da lealdade e da amizade. Inclusive, há casamentos determinados por interesses, com o concurso dos próprios pais.

  1. Também o sistema de educação precário, a pouca atenção que se dá à formação profissional dos jovens, a falta de emprego, são desafios prementes por que passam os jovens da nossa sociedade. Ainda são muitos os jovens fora do sistema escolar, com o seu futuro hipotecado, perpetuando-se, desse modo, a reprodução de classes e impedindo a mobilidade social para os filhos e filhas dos pobres.

  1. Um outro desafio é o da influência dos meios de comunicação social. Estes têm uma grande influência, positiva e negativa, na nossa sociedade. Não podem, por isso, ser consumidos sem um espírito crítico que permita analisar e filtrar os seus conteúdos. Uma referência especial merece a internet, uma das invenções mais extraordinárias da humanidade, pois ela torna o conhecimento e a informação mais próximos de nós. Contudo, é importante saber que «o ambiente digital é também um território de solidão, manipulação, exploração e violência, até ao caso extremo da dark web. Os meios de comunicação digitais podem expor ao risco de dependência, isolamento e perda progressiva de contacto com a realidade concreta, dificultando o desenvolvimento de relações interpessoais autênticas. Difundem-se novas formas de violência através das redes sociais, como o cyber bullying; a web é também um canal de difusão da pornografia e de exploração de pessoas para fins sexuais ou através do jogo de azar» (Cf. LS 23).

  1. Por isso, exortamos-vos, queridos jovens, a estarem atentos e a usarem as redes sociais como lugar de evangelização, de encontro e de testemunho da fé. Não vos limiteis a ser consumidores, mas fazei-vos, com coragem, agentes activos, difusores da mensagem de Jesus Cristo e da Palavra da Igreja.

 

 

II – JOVENS NA BUSCA DE UM FUTURO MELHOR

A Juventude e o Contexto Económico

  1. Do ponto de vista económico, Angola entrou no 4º ano de recessão, com uma redução da produção e do preço de petróleo, principal fonte de receita do Estado angolano. Os serviços públicos, nomeadamente no campo da educação e da saúde, decaíram muito. O nível de vida das populações degradou-se. A inflação é bastante elevada (a taxa de inflação acumulada dos últimos 3 anos é superior a 100%), tem havido uma crescente desvalorização do kwanza face ao dólar americano e os salários reais tiveram uma queda muito significativa, nos últimos anos.

  1. Os jovens acabam por ser os mais afectados pela pobreza, com o seu futuro ameaçado, já que a grande maioria não tem a oportunidade de conseguir trabalho, mesmo “precário” e, por isso, não podem pagar os seus estudos, não podem apoiar os seus familiares carentes e, em muitos casos, têm dificuldade em constituir família. No entanto, não podem desanimar, sendo chamados a testemunhar a sua fé neste ambiente difícil . Louvamos a coragem de muitos que lutam por uma vida digna, estudando e trabalhando, cultivando a terra, criando negócios, recusando-se a desistir ou a optar pela vida do crime.

  1. A falta de oportunidades, do ponto de vista económico, ajuda também a explicar o êxodo de muitos jovens do campo para a cidade, o desapego aos bons costumes e valores culturais (danças, cantos, contos), tornando as aldeias vazias e as cidades cada vez mais sobrepovoadas.

  1. Animamos os nossos jovens a acreditarem no futuro, a não ficarem à espera apenas do emprego no Estado, mas a cultivar o verdadeiro amor e hábito de trabalho, a desenvolver competências, e a porta das oportunidades abrir-se-ão para vós.

  1. Recomendamos também que as nossas paróquias, escolas e centros melhorem a sua qualidade de ensino e criem espaços de formação profissional, preparando os nossos jovens para o mercado do trabalho e para o empreendedorismo.

 

A Juventude e o Compromisso Político.

  1. Testemunhar a fé implica, para todos, um compromisso com a cidadania activa e participativa. Uma das consequências mais lógicas deste compromisso, é o envolvimento na política, como forma de serviço. Tal como lembra bem o Vaticano II: “Compete aos leigos, propriamente, embora não exclusi­vamente, as tarefas e o dinamismo seculares” (Cf. GS 43). Os leigos, e neste caso os jovens, são chamados, em virtude da sua vocação na Igreja, a dar a sua contribuição nas dimensões políticas e económicas e a fazerem-se eficazmente presentes na tutela e promoção dos direitos humanos. Os jovens devem envolver-se na política para a iluminar com os valores do Evangelho e os fundamentos da Doutrina Social da Igreja.

  1. Em vista das eleições autárquicas e outras, encorajamos os jovens católicos a exercerem plenamente a sua cidadania, a não deixarem o seu futuro em mãos alheias nem a deixarem-se manipular por falsas promessas eleitorais (Cfr. CV 143).

  1. Lembramos também que a participação política não se esgota nem se limita à filiação em partidos políticos. Há vários outros modos de participação individual e associativa, que vos encorajamos a conhecer para que possais tomar o destino dos nossos países em vossas mãos. Nos vossos grupos paroquiais, aprendei a Doutrina Social da Igreja, estudai as leis do País, para poderdes participar conscientemente na vida da nação. Quem se demitir, depois não se queixe, pois quem não participa, não tem o direito de exigir. (Cfr. AM 109)

 

A Juventude e o cuidado do Ambiente

  1. Na Carta Encíclica Laudato Si, o Papa Francisco convida a Igreja e a humanidade inteira a cuidar da terra, nossa casa comum (Cfr. LS 5). Na nossa terra, em nome da diversificação da economia, da ganância e da apetência pelo dinheiro, estão-se a destruir florestas (com consequências dramáticas para o clima, a fauna e a flora), a poluir rios, a desfazer montanhas, a efectuar queimadas desordenadas e descontroladas, a fazer uma exploração dos recursos mineiros anárquica e destruidora do ambiente, a fazer-se presente impunemente a caça furtiva. Os efeitos destas actividades já se fazem sentir na seca e na fome em certas regiões, no aumento das temperaturas e na redução da capacidade produtiva dos solos, na irregularidade e escassez da chuva, na extinção a um ritomo assustador de plantas e animais. Lembramos aos jovens que, mesmo dentro das nossas igrejas e famílias, existem práticas (queimadas, abate de árvores para carvão vegetal e construção, o espalhar o lixo na natureza…) igualmente nocivas ao ambiente. Deve também preocupar-nos o uso excessivo do plástico no nosso dia a dia, sabendo-se que demora cerca de cem anos a desaparecer na terra.

  1. Queridos jovens, procurai cultivar uma mentalidade ecológica, a começar pelos vossos hábitos pessoais. Estudai a Carta Encíclica Laudato Si pessoalmente e nos movimentos e grupos. Participai e promovei campanhas de arborização e de sensibilização contra as queimadas descontroladas e de limpeza dos espaços que frequentais (ruas, escolas, áreas públicas, praias…). Como um dever de cidadão e cristão, juntai as vossas vozes e forças na luta contra a exploração irresponsável e irracional dos recursos.

  1. Saudamos as recentes iniciativas da Comissão Episcopal de Justiça e Paz, neste assunto (campanhas de limpeza nas praias; elaboração do Manual sobre o Ambiente; o projecto “Laudato Si”, estendido às paróquias, escolas católicas, grupos e movimentos apostólicos de plantação de árvores; debates e mesas redondas na Rádio Ecclesia e na UCAN), bem como de outras Instituições, e pedimos que elas se expandam por todas as Dioceses da nossa Conferência.

 

 

III – O COMPROMISSO DOS JOVENS COM A IGREJA E COM A SOCIEDADE

Testemunhar a fé no seio da comunidade

  1. Na Mensagem Pastoral “A Juventude e a Fé Celebrada”, nós, os Bispos da CEAST, fizemos referência à dimensão comunitária da fé. É no seio da comunidade que descobrimos a nossa vocação comum de filhos e filhas de Deus e a missão evangelizadora da comunidade cristã. O Papa Francisco lembra o papel da comunidade, convidando os jovens a recorrerem a ela sobretudo nos momentos de dificuldade, lembrando aos jovens que é muito difícil lutar contra a própria concupiscência e contra as ciladas do demónio, se estivermos sozinhos. Em comunidade é mais fácil vencer estes desafios (Cfr. CV 10). Aliás, diz o ditado popular: “se queres ir rápido, vai sozinho, mas se queres ir longe, vai com os outros”.

  1. A força do testemunho comum foi sempre o que mais atraiu as pessoas a se juntarem ao grupo de discípulos, que tinha na base o amor por Cristo e o amor entre os membros da comunidade: “por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Cf. Jo 13,35). O amor entre os membros da comunidade não é teórico, mas expressa-se em estruturas de solidariedade concretas. Aliás, “evangelizar não é para ninguém um acto individual e separado, senão profundamente eclesial, um acto da Igreja” (Cf. EN 60).

  1. A fé recebida e celebrada deve ser testemunhada, pois a fé sem obras é uma fé morta (Cf. Tg 2,17). Ser Cristão é ser testemunha de Cristo como Cristo é testemunha do Pai, pois, Cristo é o fundamento do testemunho e a testemunha fiel do Pai (Cfr. Jo 1,18). Pelo Baptismo, todo o cristão é chamado a ser testemunha da salvação de Cristo em benefício de todos. O Senhor chama, pois, o jovem cristão a acender estrelas na noite doutros jovens, em especial dos que estão paralisados pelo medo e pela falta de fé.

  1. Assim, como membros do corpo místico de Cristo que é a Igreja, as nossas comunidades de fé são o testemunho mais eloquente d’Aquele em quem acreditamos. Pois, parafraseando o Vaticano II, a Igreja está chamada a comunicar aos homens os frutos da salvação. Fiel ao seu fundador, a Igreja dá o seu testemunho na fragilidade e na pobreza, fazendo-se solidária com os pobres e os que sofrem, descobrindo neles a Imagem de seu Fundador Pobre e sofredor (Cfr. LG 8). Deste modo, a Igreja actualiza todos os dias a sua beleza na diversidade dos seus membros.

  1. As Comissões Diocesanas e Paroquiais da Juventude, os nossos movimentos e associações e outros grupos e cada jovem em particular devem ser espaços de testemunho da fé recebida e celebrada.

  1. Recomendamos, por isso, que os jovens se tornem agentes activos de evangelização, testemunhando a sua fé em todos os lugares e ambientes, como, por exemplo, nas associações de estudantes católicos, integrados na pastoral universitária e das escolas católicas, na catequese, no voluntariado.

  1. Por fim, destacamos a comunidade familiar como lugar onde nasce e se fortalece o testemunho da fé em Cristo. A família, enquanto espaço de socialização primária, é a primeira escola da fé, lugar onde se começa a caminhada de cristãos e cidadãos. Por isso, apelamos aos jovens para dedicarem tempo às suas famílias, em especial aos seus membros mais vulneráveis: velhos, crianças e pessoas com deficiência. Estes são os primeiros receptores dos frutos da nossa fé em Cristo. A nossa caridade começa por eles.

  1. Sabemos que ainda é grande o número de escolas católicas ou dirigidas por católicos que não preparam a juventude para uma vida de testemunho da sua fé. A falta de capelanias e programas de formação humana e cristã podem reduzir a escola a um simples lugar de instrução. Apelamos, pois, a que, para além da formação humana, se faça das nossas escolas, lugares de encontro com Cristo e a sua Igreja.

 

Testemunhar a fé na vida afectiva e no Matrimónio

  1. A Missão de testemunhar a fé não é apenas um apanágio dos religiosos, religiosas e dos presbíteros, mas é missão de todo o cristão, já que, pelo baptismo, todos somos configurados à imagem de Cristo, Sacerdote, Profeta e Rei. Para os jovens cristãos, este testemunho também passa por viver uma sexualidade responsável e ter controlo da sua vida afectiva.

  1. Um namoro sincero e responsável; a vivência do sacramento do matrimónio como verdadeira imagem do amor de Cristo pela sua Igreja, através de uma aliança de amor, que se exprime na igual dignidade dos cônjuges, na felicidade dos dois e no compromisso do amor, devem fazer-se presentes na vida dos jovens católicos.

  1. Lamentavelmente, o nosso mundo propõe aos jovens a cultura do sexo sem compromisso e do prazer egoísta sem responsabilidade. Como prova deste fenómeno, constatamos o número elevado de jovens que não se querem casar pela igreja e outros que, tendo-o feito, se desfazem dele logo na primeira dificuldade.

  1. Jovens, não tenhais medo de vos comprometer, pois, comprometer-se é prometer aos outros a doação de nós mesmos, evitando viver como se a vida fosse um permanente campo de experimentação.

 

Testemunhar a fé no local de trabalho

  1. O local de trabalho é um espaço privilegiado do modo cristão de servir, tendo Cristo como nosso modelo. Ele era chamado o filho do Carpinteiro. Testemunhar a nossa fé no local de trabalho, não deve consistir apenas em exibir o nosso crucifixo ou encher a nossa secretária com imagens de santos, mas levar uma vida de honestidade consigo mesmo, com os seus clientes e /ou beneficiários do seu trabalho e com o seu empregador ou empregados. Assim, o jovem cristão não aceita ser fantasma no trabalho, não pactua com o absentismo e renuncia a toda a prática de corrupção.

  1. Alegramo-nos com o facto de haver um número significativo de jovens profissionais e empresários católicos, tanto no sector público como no sector privado. Encorajamo-los a criarem, nas suas empresas e negócios, ambientes de concorrência justos e honestos e que paguem aos seus trabalhadores aquilo que lhes é devido, cumprindo o que diz o Mestre “o trabalhador merece o seu salário”(Cf. Lc 10, 7).

 

O Papel fundamental dos agentes de Pastoral

  1. Na conclusão deste triénio, queremos agradecer o serviço dedicado dos agentes de pastoral, que muito têm feito para o acompanhamento dos jovens, nas nossas dioceses, paróquias e centros, ajudando-os na formação humana e espiritual. Esta formação, diz o Papa Francisco, implica deixar-se transformar por Cristo e, ao mesmo tempo, uma «prática habitual do bem, verificada no exame de consciência: um exercício no qual não se trata apenas de identificar os pecados, mas também de reconhecer a obra de Deus na própria experiência diária, nas vicissitudes da história e das culturas, onde se está inserido, no testemunho de muitos outros homens e mulheres que nos precederam ou acompanham com a sua sabedoria. (Cf. GE 108)

  1. Queridos sacerdotes, religiosos e religiosas, catequistas e animadores de grupos e movimentos juvenis, pedimos-vos, antes de mais, como vossos pastores, que acompanheis mais de perto os jovens e caminheis com eles, que os escuteis e os ajudeis a discernir a sua vocação, como verdadeiros pais e mães espirituais, pois, “o desejo de reconhecer a própria vocação adquire uma intensidade suprema, uma qualidade diferente e um nível superior, que responde muito melhor à dignidade da vida. Porque, em última análise, um bom discernimento é um caminho de liberdade que faz aflorar a realidade única de cada pessoa, aquela realidade que é tão sua, tão pessoal que só Deus a conhece. Os outros não podem entender plenamente nem prever de fora como se desenvolverá” (Cf. CV 295). Se assim procederdes, estareis verdadeiramente a ajudar os jovens a serem a força e o dinamismo da Igreja e da sociedade.

  1. É preciso ir ao encontro dos jovens, levando-lhes Cristo e levando-os a Cristo. Há que ir, para isso, até aos lugares onde os jovens estão e fazer do desporto, do teatro, da arte, da música, da dança, da rádio e da televisão, das redes sociais, das capelanias de escolas e colégios… meios e lugares de evangelização dos jovens pelos jovens, não nos limitando aos espaços das paróquias ou outros similares. Devemos apostar numa pastoral juvenil forte e organizada, que seja espaço de acolhimento dos jovens e lugar de partida para ir ao encontro dos jovens afastados ou indiferentes, com os próprios jovens como principais agentes de evangelização.

  1. Procurem também as nossas paróquias ter agendas pastorais que integrem os vários movimentos juvenis. Que nelas haja também espaço para a partilha e o estudo da realidade económica, política, cultural, da nossa sociedade e do mundo juvenil, procurando, a partir da figura de Jesus Cristo, encontrar respostas aos desafios que os jovens nos colocam e enfrentam no mundo de hoje. Criem-se também momentos de oração e espiritualidade próprios para os jovens, bem como lugares de encontro, de lazer, de partilha, onde os jovens vivam o seu mundo com os valores da fé católica.

  1. Por fim, recomendamos às Comissões Diocesanas e Paroquiais da Juventude a realizarem estudos e sondagens para auscultarem os jovens e conhecerem os seus sonhos e angústias, as suas perguntas e desafios, pois, em muitos casos, os agentes da pastoral querem tratar dos assuntos dos jovens e dar respostas sem conhecerem as verdadeiras perguntas e inquietações destes. Recomendamos que as formações de lideranças juvenis, incluindo seminários e noviciados, preparem os anunciadores do Evangelho para o acompanhamento, escuta e diálogo com os jovens.

 

Conclusão:

  1. Em jeito de conclusão, queremos reiterar que testemunhar a fé é um acto contínuo e não circunstancial. A fé que recebemos e celebramos, deve ser vivida e informar toda a realidade e todos os momentos e circunstâncias da nossa vida. Se, como jovens cristãos, maioria nos nossos países, vos comprometerdes em viver a fé com autenticidade, no dia-a-dia, teremos uma Angola melhor, um São Tomé e Príncipe melhor.

  1. Temos consciência de que o mundo, que vos estamos a oferecer, está cheio de desafios e armadilhas para vós. Mas o importante é acreditar, não se deixando bloquear pela insegurança, pelo medo. Com o Papa Francisco, nós, vossos Pastores, convidamos-vos a não ter medo de arriscar e de cometer erros (Cf. CV 142). Confiai em Cristo que nos diz “tende coragem, Eu venci o mundo” (Cf. Jo 16, 33).

  1. A força e o dinamismo da vossa idade podem tentar-vos para a velocidade e a pressa. Não caiais na ditadura da ideologia do “tempo é dinheiro”. Pelo contrário, sede pessoas programadas e investi nos estudos e na vossa capacitação. Sede amigos da leitura e das artes e fazei as coisas com tempo, a tempo e com esperança, pois os sonhos mais belos conquistam-se com fé e esperança. Sede livres, mas responsáveis, pois foi para a liberdade que Cristo vos salvou (Cf. Gl 5, 1). Não tenhais medo de assumir com coragem e verdade a vossa fé em Cristo, como membros da Igreja católica, vossa Mãe e Mestra. Vós sois filhos desta Igreja e também Igreja. Sede, pois, corajosas testemunhas de Cristo neste nosso mundo paganizado, laicista e marcado por uma cultura egocêntrica do prazer e dinheiro.

  1. Neste mês de Outubro, mês missionário e, este ano, declarado pelo Santo Padre mês missionário extraordinário, que Maria, Mãe da Igreja e Rainha das Missões, vos anime a ser testemunhas corajosas das maravilhas que o Senhor opera, cada dia, nas vossas vidas.

 

 

Arquidiocese de  Saurimo, 14 de Outubro de 2019

Mês dedicado à Virgem Santa Maria e Mês Missionário Extraordinário

 

Os Bispos da CEAST