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É Advento!

"Num canto as folhas recolhidas. Ao lado, as crianças brincam como se fosse a primeira vez. Algo de extraordinário pode acontecer. Esperamos. Acreditamos. Renovamo-nos. É advento."

Num canto as folhas recolhidas. Ao lado, as crianças brincam como se fosse a primeira vez.

Algo de extraordinário pode acontecer.

Esperamos. Acreditamos. Renovamo-nos.

É advento.

 

Pe. Nélio Pita, CM

As árvores permanentemente incendiadas, buquês gigantes de flores amarelas, assim permaneceram durante mais uma semana.
O vento despedaça-as lentamente.
Cada folha arrancada aos finos ramos tinge de amarelo e castanho o asfalto da praça.
Advento vigilante, começo desejado.
Advento como quem conta os dias de flores na mão, dias como muitas folhas em fim de estação, dias pequenos e famintos de sol, dias em que os bancos do jardim se assemelham a grandes desertos.
«A história não acaba aqui», dizemo-nos.
Um homem varre pacientemente aquele chão. As folhas amontoadas. Amarelas, castanhas, negras como o alcatrão. Continuam a cair, libertam-se, dançam no ar como se fossem flocos de neve. Caem lentamente. E as crianças brincam entre folhas amarelas e castanhas.
«Não fica por aqui…», dizemo-nos, nostálgicos, enquanto contemplamos a chuva de coloridas folhas inúteis, as mesmas que nos tinham oferecido generosa sombra durante o tempo quente.
Recordamos uma cena de verão. Interrogamo-nos de novo. Qual é a lição da natureza? Custa-nos muito. Resistimos. Adiamos o assunto. Até à manhã de outono. Enquanto observamos o lento despojamento das árvores, acabamos por admitir: «Isto não fica por aqui. Eu também sou uma folha…».
Contemplamos o arrastar das folhas mortas embaladas pela vassoura que encaminha e recolhe o que já cumpriu a sua função.
O chão reaparece. Limpo.
Num canto as folhas recolhidas. Ao lado, as crianças brincam como se fosse a primeira vez. Algo de extraordinário pode acontecer. Esperamos. Acreditamos. Renovamo-nos. É advento.