Rua Pe. Martinho Pinto da Rocha São Tomé, São Tomé e Príncipe

21º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO B

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Jos 24,1-2a.15-17.18b; Ef 5,21-32; Jo 6, 60-69

Para quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna”.

 

 Depois da pausa da Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria, a liturgia retoma o Evangelho de João onde, o Senhor, apresentando-se como pão, do qual devemos nos alimentar, portanto, somos convidados a comer a sua carne e beber o seu sangue, para termos a vida eterna (cf. Jo 6,51-59), muitos dos discípulos se escandalizaram e disseram: “Estas palavras são duras. Quem pode escutá-las”.

 Pois, estes tencionam compreender a sublime proposta de Cristo de se fazer alimento e bebida da vida, com as nossas categorias humanas, com os nossos conceitos? Como não a definir incompreensível, absurda e um discurso duro!  E é duro não porque esteja indicando outro paradoxo a observar, como “amai os vossos inimigos” (Mt 5,44), mas porque os convida (como nós também) a pensar em grande, a voar alto, a mudar  a imagem de Deus: um Deus que se torna leve como uma palavra, pequeno como um pedaço de pão, que ama a humildade dos pequeninos … um Deus que olha para baixo.

 Portanto, a fraqueza da fé dos discípulos (assim como a nossa) os leva a dúvidas, e o Senhor é ciente disso – “entre vós há alguns que não acreditam”.  De facto, sabendo que “muitos dos discípulos afastaram-se e já não andavam com Ele”, Ele se apercebe que a crise se estende também aos seus doze discípulos mais íntimos e conclui: “também vós quereis ir embora?”

 Curiosamente, nisso, Jesus não sugere respostas, não dá ordens ou lições, pelo contrário, deixa os seus discípulos livres para escolher, ir ou ficar.  Em outras palavras, Ele nos leva a olhar dentro de nós, a buscar a verdade do coração: o que realmente queremos?  Qual é o desejo que nos move?  Sem obrigar ninguém, então, Ele apela para a liberdade final de cada um como seu discípulo.  Quem ou o que queremos servir?

 É a mesma pergunta que, na 1ª leitura, por meio de Josué, Deus colocou o povo diante de uma escolha: “escolhei hoje a quem quereis servir”: o Senhor ou os deuses estrangeiros?  “Também vós quereis ir embora?”  É fácil sair, é fácil abandonar tudo, é fácil levantando as mãos e livrar-se … E não só no que tange às coisas de fé … Mas, neste caso, o povo foi sábio, eis a resposta: “Longe de nós abandonar o Senhor para ser vir outros deuses…, queremos servir o Senhor, porque Ele é o nosso Deus”.

 São Paulo fala-nos da família, dos maridos que amam as suas esposas, das esposas que amam os seus maridos, como Cristo ama a Igreja, como Cristo que deu a vida pela sua Igreja … E também ali, nas famílias, se há algo errado, algo que não funciona, é fácil sair, é mais difícil amar como Cristo, que ama a sua Igreja, a ama mesmo quando ela segue os seus próprios caminhos, a ama mesmo quando é pecadora, a ama ao ponto de dar a vida por ela …

 “Também vós quereis ir embora?” É Simão Pedro quem salva a situação: “Para quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna … ”. Pedro diz sim não porque ele entendeu, mas porque ama Jesus e se ‘casa’ com as suas palavras.  Ele confia e se abandona nas mãos deste “Santo de Deus” que é Jesus. De fato, desta confiança e abandono, como afirmou o Papa Francisco, Pedro “não diz ‘para onde iremos?’, mas ‘para quem iremos?’.  (…) Precisamos de Jesus, de estar com Ele, de alimentarmo-nos à sua mesa, com as suas palavras de vida eterna! Acreditar em Jesus significa torná-lo centro, o sentido da nossa vida”(Angelus, 23.08.15).

 Por isso, caríssimos, saibais disto: Cristo proporciona a eternidade a tudo o que há de belo e bom no coração do homem.  Para quem poderemos ir mais? Pedro poderia voltar para o seu barco ou para Betsaida. Mas, entre o barco e a sua aldeia natal que constituem a sobrevivência, ele opta por vivência de verdade e para sempre. E eu vos digo, caríssimos, não há barco que valha a eternidade.  Pois, “Tu tens palavras de vida eterna”, em suma, só Jesus tem palavras que dão vida à vida.

 Podemos ir a qualquer lugar, podemos deambular pelo mundo, e hoje são muitos os convites … Mas a verdade é só uma, como já dizia Santo Agostinho “inquieto está o nosso coração enquanto não repousar em Deus” (Confissões, I,1,1).  Portanto, agora o Senhor dirige também a mesma pergunta a nós: “Também vós quereis ir embora?” Que cada um responda no silêncio do seu coração. Todavia, não nos esqueçamos que alguém, em nosso nome e em nome daqueles que ainda não conhecem  Cristo, respondeu: “Senhor, Tu tens as palavras da vida eterna”.

 Boa meditação, caríssimos e “uwã santù djàgingù da tudu nancê”. JB

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