Rua Pe. Martinho Pinto da Rocha São Tomé, São Tomé e Príncipe

28º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO B

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Sab 7,7-11; Heb 4,12-13; Mc 10,17–30

… é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus

 

Uma expressão extremamente difícil de ouvir.  Na verdade, além de ser viva e eficaz, “a Palavra de Deus é mais cortante que uma espada de dois gumes … capaz de discernir os pensamentos e intenções do coração”.  E antes de nós, os discípulos o fizeram, reagindo e manifestando claramente a sua perplexidade: “quem pode então salvar-se …vê como nós deixámos tudo para Te seguir”.

Ninguém nega que as pessoas tenham direito a uma vida digna. Mas o fato é que muitas vezes não é o necessário ou o útil que tentamos perseguir, mas o supérfluo, o excedente, além do útil, as riquezas vãs, e nós nos apegamos a elas.

Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?”.  Este homem rico sem nome, mas tão bem-intencionado, representa o homem de todos os tempos que busca a Deus com sinceridade, mas não consegue se libertar, não consegue renunciar aos bens deste mundo efémero – “não podeis servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt 6,24). 

Infelizmente, o homem encheu o seu coração de vaidade e egoísmo, bloqueando-se a si mesmo, a ponto de limitar a Deus à sua medida, às suas possibilidades. E ele diz: “Mestre, tudo isso tenho eu cumprido desde a juventude”, em outras palavras, “o que mais tenho que fazer?Na verdade, um coração cheio de presunção e obcecado pelos bens materiais, não pode dar lugar ao absoluto de Deus e voar alto, e assim sendo, se alimenta do vazio e da tristeza – “ele ficou pesaroso e foi embora cheio de tristeza, pois possuía muitos bens”.

Caríssimos, a sua pergunta expressa a esperança escatológica, ou seja, de uma vida além da morte, que é um dom de Deus, mas que inclui, por parte do homem, também o seguinte compromisso: “Falta-te uma coisa: vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres …”. Lhe diria São Paulo: “faça o bem e te enriqueças de boas obras, … a fim de obteres a vida verdadeira” (1Tm6,18.19), isto é, deixa tudo para ter Tudo; serás feliz se fizer alguém feliz; faça os outros felizes se quiseres ser feliz. E “vem e segue-Me”: faça uma reviravolta na sua vida, mude-a.

Aqui, a balança da felicidade coloca no prato a moeda mais preciosa da existência, que é dar e receber amor. O bom Mestre não intenciona inculcar pobreza naquele homem rico e sem nome, mas preencher a sua vida com rostos e nomes – “cem vezes mais, já neste mundo, em casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras”. Em vez disso, ele “foi embora cheio de tristeza, pois possuía muitos bens”. Pois, “como será difícil para os que têm riquezas entrar no reino de Deus!

Claro que não é fácil compreender e viver esta exigência, sobretudo porque vivemos num mundo e numa sociedade onde a economia se tornou o valor absoluto e o dinheiro, um autêntico ídolo.  Aliás, a convicção de que os ricos são felizes e os pobres são desgraçados está se espalhando cada vez mais. 

Precisamente por isso a palavra de Deus nos convida a pedir o dom do espírito da “sabedoria” – “rezei e veio a mim o espírito de sabedoria” (Sb 7,7) – que nos revela o verdadeiro sentido das coisas e nos ensina onde se encontra a “verdadeira” riqueza, que certamente não está no ouro, na prata ou nas contas bancárias que podemos possuir, mas em amar os outros e compartilhar o que somos e temos. E no final do mesmo Libro de Sabedoria, sobre ela, vem dito: “… com ela me vieram todos os bens e, pelas suas mãos, riquezas inumeráveis” (Sb 7,11), “porque a Deus tudo é possível”.

Interessante, que nos Evangelhos, muitas outras pessoas ricas se encontraram com Jesus: Zaqueu, Levi, Lázaro, Susana, Joana. O que há de diferente nessas pessoas ricas que Jesus amava, e nas quais, com seu grupo, Ele se apoiava? Eles sabiam fazer comunhão: Zaqueu (Lc 19,1-10) e Levi (Lc 27,32) enchem as suas casas de hóspedes para o banquete; Susana e Joana ajudaram os doze com seus bens (Lucas 8,3). As regras evangélicas sobre dinheiro podem ser reduzidas a apenas duas: a) não o acumulemos, b) o que possuímos é também para compartilhar. Não coloquemos a nossa segurança na acumulação de bens, mas na partilha deles.

Sendo assim, as palavras de Jesus, “como será difícil para os que têm riquezas entrar no reino de Deus!”, desafiam-nos, pessoalmente, obrigando-nos a rever as nossas “riquezas” e o risco de se tornarem um sério obstáculo ao nosso encontro com Deus.  Podem não ser de natureza económica …  E todos corremos o risco de nos deixar cair na armadilha, para perder de vista o essencial, isto é, aquela relação de amor com Deus que implica uma abertura a Ele e ao irmão.

Não foi em vão que Madre Teresa de Calcutá, depois de meditar sobre este texto do Evangelho, teria dito: “quando as coisas se apoderam de nós, nos tornamos muito pobres.  Devemos nos libertar das coisas para sermos cheios de Deus”. Pois, que o Senhor não permita, como o jovem rico, que nos deixemos dominar pela riqueza, fechando o coração a Ele e aos irmãos. Pois, “felizes os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus” (Mt 5,3).

Boa meditação, caríssimos e “uwã santù djàgingù da tudu nancê”. JB

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